Deu no Diário de Pernambuco: o governo federal prepara o anúncio da inclusão de mais um benefício do já elástico programa Bolsa Família: é o auxílio funeral, que garantirá a cobertura de gastos com o enterro dos beneficiados. Afinal de contas, pobre também, merece exéquias dignas.
Nada contra, não fosse o caráter eleitoreiro de mais uma medida assistencialista, que não será a última: planeja-se alargar esse tentáculo de forma a alcançar em breve a cobertura de acidentes pessoais (e, numa terceira etapa, o seguro de vida) para as classes D e E, o público do programa, que já atinge quase 12 milhões de brasileiros descamisados.
O problema é que, passados longos sete anos, o governo Lula parece não ter encontrado a porta de saída. Além de fonte perpétua de corrupção, o Bolsa Família nem de longe resolveu as mais básicas questões sociais que tanto continuam a estigmatizar o país lá fora: os altos índices de violência – tanto urbana quanto rural, o subemprego – associado principalmente à pouca qualificação da mão-de-obra, os crescentes déficits habitacionais, a exclusão de grande parte da população do sistema de saúde, também ineficiente. Em que pese ao alardeado progresso na distribuição da renda, o fato é que o governo prefere continuar oferecendo o peixe a ensinar a pescar. Quem sabe por absoluta falta de competência.
O que espanta – claro, aos olhos dos mais sensatos – é que a velha prática do assistencialismo, em vez de inspirar falas de reprovação, continua acirrando disputas no quesito “paternidade”. Depois de Fernando Henrique Cardoso, agora é a vez de José Sarney lembrar que vem de sua gestão o salário-desemprego, o salário-alimentação, o vale-transporte, além da universalização (!) do atendimento à saúde.
Quem dá mais na disputa do título de Pai dos Pobres? Getúlio Vargas, pelo visto, de há muito já ficou para trás. No máximo ganha menção honrosa pelo pioneirismo (sobretudo no item marketing popular).
De tudo, o que se conclui é que, infelizmente, o coronelismo ainda mantém vigor impressionante (Renan está na cola para assumir a vaguinha de Sarney). Nada obstante, um pouquinho de bom senso já seria suficiente até para a mais embotada das “otoridades” enxergar que está faltando quem tenha coragem de fazer políticas públicas, em vez de políticas para pobres. Será que, se eleito presidente, José Serra colocará em prática o que alardeava quando despontava como teórico de sólidos fundamentos nas cátedras da Economia?
